segunda-feira, 31 de março de 2008

Фёдор Миха́йлович Достое́вский II




"Mas é exatamente nesse frígido e repugnante semidesespero, nesta semicrença, neste consciente enterrar-se vivo, por aflição, no subsolo, por quarenta anos; nesta situação instransponível criada com esforço e, apesar de tudo, um tanto duvidosa, em toda esta peçonha dos desejos insatisfeitos que penetraram no interior do ser; em toda esta febre das vacilações, das decisões tomadas para sempre e dos arrependimentos que tornam a surgir um instante depois, em tudo isso é que consiste o sumo daquele estranho prazer de que falei."


"Eu, por exemplo, triunfo sobre todos; todos, naturalmente, ficam reduzidos a nada e são forçados a reconhecer voluntariamente as minhas qualidades, e eu perdôo a todos."


"Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele."


"Penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato. Mas isto ainda não é tudo, ainda não é o seu maior defeito; o seu maior defeito é a sua permanente imoralidade."


Fyodor Mikhaylovich Dostoevsky IN: Notas do Subterrâneo ou Memórias do Subsolo

Chuck Palahniuk



"You are not your job, you are not the content of your wallet, you are not the car your drive, you are not your fucking khakis. You`re the all singing all dancing crap of the world."


"The things you own, end up owning you."


"We spend our lifes in jobs we hate to buy shit we don't need."


"Only after disaster can we be ressurected."


Chuck Palahniuk IN: Fight Club

"Ver um mundo em um grão de areia/ e um céu numa flor selvagem/ é ter o infinito na palma da mão/ e a eternidade em uma hora".
William Blake

Caio Fernando Abreu




"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos." - Caio F.


"Vita si moriendi virtus abest, servitus est"


(Sêneca)




Perdi-me dentro de mim


Porque eu era labirinto


e hoje, quando me sinto,


é com saudades de mim.


(Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916), foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.)




"Je suis l'empire à la fin de la décadence"

Paul Verlaine (1844 - 1896)

Bevolking van die Québec




Bevolking
Die bevolking van die Province du Québec bestaan uit die afstammelinge van die Franssprekende en Engelssprekende setlaars en die Eerste Nasies (Premières Nations of Amerindians, veral Iroquois en Hurone, en Inuït). Daarbenewens het immigrante van dwarsoor die wêreld hulle in Quebec gevestig. Sedert 1945 het 650 000 immigrante uit 80 lande 'n nuwe tuiste in Québec gevind. 83% van die totale bevolking praat Frans, sowat 12% is Engelstalig. Daar is minderhede van Sjinese, Portugees-, Grieks- en Italiaanstaliges. Die grootste deel van die Québécois leef langs die Fleuve Saint-Laurent (Saint-Laurentrivier).


Claude Bernou se kaart van Nieu-Frankryk (1681)Voor die aankoms van die Franse setlaars was die gebied van die huidige provinsie die tuiste van 'n aantal Indiaanse stamme - die Eerste Nasies. Die Provinsie Quebec erken vandag elf nasies op sy gebied - die Inuït, die Mohawks (Irokese of Iroquois), die Innus, die Cri's, die Algonkins, die Atikamekw, die Micmacs, die Hurone, die Abenaki's, die Malesiete en die Naskapi's.

Die elf stamme van die Eerste Nasies het vandag sowat 70 000 lede en streef daarna om hul eie taal en kultuur te bewaar. Die Iroquois en Hurone is albei lede van die Irokese taalfamilie. Die naam "Huroon" is afgelei van die eieaardige kapsels van die mans. Die Franse woord l'huire, wat eintlik die opgesette borstels van 'n varken beskryf, word tot "Huroon" vervorm.

In die tydperk tussen 1627 en 1663 neem die Franse bevolking van Quebec van 100 tot 2 500 toe. Die eerste setlaars se geledere is binne 35 jaar versterk deur sowat 1 250 immigrante, en danksy die natuurlike bevolkingsgroei het hierdie syfer verdubbel. Die Franse setlaars het veral uit die kusgebiede en hawestede van Noord- en Wes-Frankryk en die hoofstad Parys gekom. Die geskiedkundige provinsies, wat die grootste rol in die volksplanting in Quebec gespeel het, was Normandië, Aunis, Perche, Île-de-France, Poitou, Maine, Saintonge, Anjou en Bretagne.

Die bevolking van Quebec het in die derde kwartaal van 2007 met 0,25 persent gegroei, en alhoewel hierdie syfer minder as die gemiddelde van Kanada is, het die aantal geboortes duidelik toegeneem. Vir die eerste keer sedert die 1980's is die natuurlike bevolkingsgroei sedert die begin van die jaar 2006 steeds hoër as die gemiddelde natuurlike bevolkingsaanwas vir die hele land.


L'Assemblée Nationale du Québec, die parlement van QuebecDie Franse taal het die taalstryd in die sewentigerjare gewen: opskrifte en kennisgewings moes gewoonlik eentalig Frans wees. Die afskaling van Engels word vandag nie meer stelselmatig deurgevoer nie; Engelstalige opskrifte behoort egter steeds kleiner te wees as die Franse. Immigrante word deur die provinisiale regering gekies; in 'n poging om die persentasie Franstaliges te vergroot het baie Noord-Afrikane in die afgelope jare 'n verblyfpermit gekry.


Immigrasie
In die jaar 2003 is 37 619 immigrante aanvaar, veral uit Franstalige lande en voormalige Franse kolonies. Die belangrikste lande van herkoms is Frankryk, België, Haiti, Libanon, Marokko, Sirië en Algerië.

Sobre o conceito da história




Walter Benjamin



1.Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.


2.“Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedido uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.


3.O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à la order du jour ─ e esse dia é justamente o do juízo final.


4.“Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo.”Hegel, 1807A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.


5.A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido. “A verdade nunca nos escapará” ─ essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o historicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.


6.Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
7.”Pensa na escuridão e no grande frio Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.”Brecht, Ópera dos três vinténsFustes de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o do empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais. A acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pous ressusciter Carthage”. A natureza dessa tristeza se tornará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso dis tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.


8.A tradição dos oprimidos nos ensino que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.


9.“Minhas asas estão prontas para o vôo,Se pudesse, eu retrocederiaPois eu seria menos felizSe permanecesse mais tempo vivo.”Gerhard Scholem, Saudação do anjoHá um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


10. Os temas que as regras do claustro impunham à meditação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocupação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredada por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma realidade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.


11.O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas idéias econômicas. É uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festeja uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser “o escravo de outros homens, que se tornaram... proprietários”. Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos... No aperfeiçoamento... do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador”. Esse conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a águia marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis”.12.“Precisamos da história, mas não como precisam dela os ociosos que passeiam no jardim da ciência.”Nietzche, Vantagens e desvantagens da história para a vidaO sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.


13.“Nossa causa está cada dia mais clarae o povo cada dia mais esclarecido.”Jozef Dietzgen, Filosofia social-democrataA teoria, e mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conhecimentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero humano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em flecha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia da sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.


14.“A origem é o alvo.”Karl Kraus, Palavras em versoA história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”. Assim, Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A revolução francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado, Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx.


15.A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A grande revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo mod que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:

Qui le croirait! on dit qu`irrités contre l’heure De nouveaux Josués, au pied de chaque tour,Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”


16.O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.


17.O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contráriio, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, uma configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra , no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcedidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.18.“Comparados com a história da vida orgânica da Terra”, diz um biólogo contemporâneo, “os míseros 50 000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas. Por essa escala, toda a história da humanidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora”. O “agora”, que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana.


Apêndice


1.O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltram estilhaços do messiânico.


2.Certamente, os advinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os advinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.[1940]


Estas teses, publicadas postumamente, constituem o último escrito do pensador alemão Walter Benjamim (1892-1940).

Georg Simmel



« (...) tout ce que les individus, le lieu immédiatement concret de toute réalité historique, recèlent comme pulsion, intérêt, buts, tendances, états et mouvement psychologiques, pouvant engendrer un effet sur l’autre ou recevoir un effet venant des autres. » — Sociologie, p. 44.




« Voici les éléments de tout être et de tout fait social, inséparable dans la réalité : d’une part, un intérêt, un but, ou un motif, d’autre part une forme, un mode de l’action réciproque entre les individus, par lequel, ou sous la forme duquel ce contenu accède à la réalité sociale. »




Tous trois, droit, intellectualité et argent se caractérisent par l’indifférence vis-à-vis de la particularité individuelle ; tous trois extraient, de la totalité concrète des mouvements vitaux, un facteur abstrait, général, qui se développe d’après des normes spécifiques et autonomes, et intervient depuis celles-ci dans le faisceau des intérêts existentiels, leur imposant sa propre détermination. En ayant ainsi le pouvoir de prescrire des formes et des directions à des contenus qui par nature leur sont indifférents, ils introduisent tous trois, inévitablement, dans la totalité de la vie, les contradictions qui nous occupent ici. Quand l’égalité s’empare des fondements formels des relations interhumaines, elle devient le moyen d’exprimer de la façon la plus aiguë et la plus fructueuse les inégalités individuelles ; en respectant les limites de l’égalité formelle, l’égoïsme a pris son parti des obstacles internes et externes et possède désormais, avec la validité universelle de ces déterminations, une arme qui, servant à chacun, sert aussi contre chacun. » — Philosphie de l'argent, p. 563.

« La dernière raison des contradictions internes de cette configuration peut être formulée ainsi : entre l’individu, avec ses situations et ses besoin d’un côté, et toutes les entité supra- ou infra-individuelle et les dispositions intérieures ou extérieures que la structure collective apporte avec elle d’un autre côté, il n’y a pas de relation constante, fondée sur un principe, mais une relation variable et aléatoire. (…) Ce caractère aléatoire n’est pas un hasard, si l’on peut dire, mais l’expression logique de l’incommensurabilité entre ces situations spécifiquement individuelles dont il est question ici, avec tout ce qu’elles exigent, et les institutions et atmosphères qui régissent ou qui servent la vie commune et côte à côte du grand nombre. » — Sociologie p. 200.




« La faculté de l’homme de se diviser lui-même en parties et de ressentir une quelconque partie de lui-même comme constituant son véritable Moi, qui entre en conflit avec d’autres parties et lutte pour la détermination de son activité – cette faculté met fréquemment l’homme, pour autant qu’il a conscience d’être un être social, dans une relation d’opposition aux impulsions et intérêts de son Moi qui restent extérieures à son caractère social : le conflit entre la société et l’individu comme un combat entre les parties de son être. » — Sociologie et épistémologie, 1981, pp. 137-138




Georg Simmel


The Human Condition

« C'est une société de travailleurs que l'on va délivrer des chaînes du travail, et cette société ne sait plus rien des activités plus hautes et plus enrichissantes pour lesquelles il vaudrait la peine de gagner cette liberté. »



« C'est une société de travailleurs que l'on va délivrer des chaînes du travail, et cette société ne sait plus rien des activités plus hautes et plus enrichissantes pour lesquelles il vaudrait la peine de gagner cette liberté. »


« C'est l'action qui est le plus étroitement liée à la condition humaine de natalité ; le commencement inhérent à la naissance ne peut se faire sentir dans le monde que parce que le nouveau venu possède la faculté d'entreprendre du neuf, c'est-à-dire d'agir. En ce sens d'initiative un élément d'action, et donc de natalité, est inhérent à toutes les activités humaines. De plus, l'action étant l'activité politique par excellence, la natalité, par opposition à la mortalité, est sans doute la catégorie centrale de la pensée politique, par opposition à la pensée métaphysique. »


« Le devoir des mortels, et leur grandeur possible, résident dans leur capacité de produire de choses - œuvres, exploits et paroles - qui mériteraient d'appartenir et, au moins jusqu'à un certain point, appartiennent à la durée sans fin, de sorte que par leur intermédiaire les mortels puissent trouver place dans un cosmos où tout est immortel sauf eux. »


« A l'intérieur [des groupements sociaux], l'égalité, bien loin d'être une parité, n'évoque rien tant que l'égalité des membres face au despotisme du père, avec cette différence que dans la société, où le nombre suffit à renforcer formidablement la puissance naturelle de l'intérêt commun et de l'opinion unanime, on a pu éventuellement se dispenser de l'autorité réellement exercée par un homme représentant cet intérêt commun, cette opinion correcte. Le phénomène du conformisme est caractéristique de cette dernière étape de l'évolution. (...) L'essentiel est que la société à tous les niveaux exclut la possibilité de l'action, laquelle était jadis exclue du foyer. De chacun de ses membres, elle exige au contraire un certain comportement, imposant d'innombrables règles qui, toutes, tendent à « normaliser » ses membres, à les faire marcher droit, à éliminer les gestes spontanés ou les exploits extraordinaires. »


« l'on accélère tellement la cadence d'usure que la différence objective entre usage et consommation, entre la relative durabilité des objets d'usage et le va-et-vient rapide des biens de consommation, devient finalement insignifiante »


« Pour une société de travailleurs le monde des machines remplace le monde réel, même si ce pseudo-monde ne peut jouer le rôle le plus important de l'artifice humain, qui est d'offrir aux mortels un séjour plus durable et plus stable qu'eux-mêmes. »


« « Accomplir de grandes actions et dire de grandes paroles » ne laisse point de trace, nul produit qui puisse durer après que le moment aura passé de l'acte et du verbe. (...) Les hommes de parole et d'action (...) ont besoin de l'artiste, du poète et de l'historiographe, du bâtisseur de monuments ou de l'écrivain, car sans eux le seul produit de leur activité, l'histoire qu'ils jouent et qu'ils racontent, ne survivrait pas un instant. »


Hannah Arendt In: Condition de l'homme moderne

domingo, 30 de março de 2008

São Paulo S. A.


Por enquanto, por falta de tempo só vai a sinopse, porém, já adianto que o filme São Paulo S. A. de Luís Sérgio Person é espetacular; tanto em crítica como em línguagem. Não deixem de ver ! O Filme é fundamental, sobretudo para quem vive em Sãp Paulo.
Foi Ganhador dos Prêmios: Primeira Mostra Internacional do Novo Cinema de Pesaro (Itália), Recebeu o Prêmio de Público., VIII Festival Internacional do Filme de Acapulco (México), Recebeu o Prêmio Cabeza de Palenque; Comissão Estadual de Cinema de São Paulo; Recebeu o Prêmio Governador do Estado.


'São Paulo S/A' se passa no momento da euforia desenvolvimentista provocada pela instalação de indústrias automobilísticas estrangeiras no Brasil no final da década de 50. O filme conta a história de Carlos, que segue a trajetória da maioria dos jovens de certa camada da classe média paulistana. Guiando-se pelas oportunidades imediatas que a sociedade oferece, ingressa numa grande empresa. Logo depois, aceita um cargo numa fábrica de auto-peças, da qual torna-se gerente. A certa altura, encontra-se na pele de um chefe de família, que trabalha muito, ganha bem, mas vive insatisfeito. Sem um projeto pessoal de vida ou perspectivas de se opor à condição que rejeita, só lhe resta fugir.
As Coisas não parecem ter mudado muito, basta ver Cronicamente Inviável de Sérgio Bianchi:

Originariamente uma crítica mordaz à classe média paulistana do início dos anos 60, que buscava enriquecer com o "desenvolvimentismo" experimentado pelos patrões e patrocinado pela sonegação de impostos, empréstimos de recursos públicos e muita propaganda. Junto a essa falta de ética nos negócios estava a hipocrisia do casamento, a ponto de, em determinado momento, o patrão ser questionado por Carlos, que pergunta a ele porque o mesmo mantinha amantes. O patrão responde cínica e até mesmo surpreso: "O que uma coisa tem a ver com outra?".A hipocrisia e falta de perspectiva desse mundo adulto era sentida pelos jovens da classe média, que não tinham opção respeitável a não ser se tornarem empresários e chefes de família, mas ansiavam por uma vida mais livre, prenúncio da onda hippie que estaria por vir.

Eventos abriram novos caminhos







Manifestações de Praga, Paris e México facilitaram consolidação da democracia




Ubiratan Brasil




O escritor Carlos Fuentes viveu de maneira intensa a primavera européia de 1968. Em maio, presenciou a revolta dos estudantes franceses contra o conformismo, saindo às ruas armados de tinta e pichando os muros de Paris com dizeres diversos, como ''A política está na rua'', ''Consumidores ou participantes?'' e ''O álcool mata. Tome LSD''. Meses depois, ele viajou ao lado de Gabriel García Márquez e Julio Cortázar até Praga, na antiga Checoslováquia, para visitar Milan Kundera. Lá, dias antes, manifestantes enfrentaram os invasores soviéticos, buscando humanizar o comunismo. Finalmente, em dezembro, comoveu-se, a distância, com a decisão do governo mexicano em atirar contra estudantes em uma manifestação - o ''massacre de Tlatelolco''.Três eventos de grande importância ocorridos em um mesmo ano. ''1968 é um desses anos-constelação nos quais, sem razão imediatamente explicável, coincidem fatos, movimentos e personalidades inesperadas e separadas no espaço'', conta Fuentes, que uniu seus relatos pessoais, escritos no calor da hora, e formou o livro Em 68, que a Rocco lança nesta semana.Ele conta que, na França, presenciou a insatisfação da juventude parisiense com a ordem conservadora, capitalista e consumidora, que havia esquecido a promessa humanista de luta contra o fascismo. Já a Primavera de Praga não combatia o sistema comunista - humanizava-o, democratizava-o e socializava-o. E o movimento mexicano de 68, no qual o governo de Diaz Ordaz reprimiu violentamente os estudantes em Tlatelolco, representou uma ruptura flagrante entre a legitimidade revolucionária como fundamento de todos os governos.''Mas, como o maio parisiense, a Primavera de Praga e o ano 68 mexicano sofreram uma derrota de Pirro, ou seja, derrotas aparentes cujos frutos só puderam ser avaliados a longo prazo: derrotas pírricas, vitórias adiadas'', comenta Fuentes, que conversou com o Estado por telefone. ''Os caminhos da democracia e da crítica social se abriram graças aos movimentos de Paris, Praga e México.'




'Ainda há muito que se falar sobre os movimentos de 1968?


Sim, mesmo passados 40 anos. O mundo mudou muito, mas uma simultaneidade de eventos marcou aquele ano: Paris, Praga, México e também em Chicago, onde houve eleições. Eventos cruciais como os de 1848, quando revoluções de ruptura entre burguesia e proletariado se estenderam de Paris a Budapeste. Foi essa simultaneidade que me motivou a escrever esse livro.




E são mesmo derrotas pírricas?


Sim. Na França, em 68, desapareceu o velho partido socialista de Guy Mollet. O mesmo aconteceu com Suécia e Argélia. Com isso, abriu-se caminho para um novo socialismo encabeçado por François Mitterrand. Em Praga, a reação à ocupação soviética provocou uma série de movimentos que resultou na queda do muro de Berlim, em 1989, e no fim do poder da União Soviética. E, no México, graças ao sacrifício do movimento estudantil, derrotado naquele ano, abriu-se caminho para a atual democracia mexicana, que certamente não existiria sem os acontecimentos de 68.




Portanto, foram movimentos que, embora derrotados, trouxeram muitos benefícios para a humanidade.Em sua opinião, a história se repete ou se refaz?


Não acredito que se repita nunca. A história é um evento contínuo, mas sempre único. É um engano pensar que haja repetição.E o que alimenta uma mudança: a nostalgia ou a esperança?Falamos aqui de duas utopias. Uma é regressiva, que busca a sociedade perfeita. É aquela pregada por D. Quixote aos pastores, a de Ovídio, para quem as pessoas se amam sem conflito ou guerra. E a outra é a utopia do futuro, que busca uma sociedade ideal. Mas creio que não passam de utopias - nossa preocupação tem de ser com o presente, no qual está o passado (nossa memória) e o futuro (nosso desejo). O tempo de se realizar algo é sempre o agora, considerando que a história não é simplesmente uma coleção de fatos, mas um horizonte de possibilidades.




É possível combater a injustiça sem que isso provoque mais injustiça?


Creio que não se consegue a justiça de forma absoluta, instantânea. Veja o caso da eleição americana, na qual hoje uma mulher e um negro disputam a candidatura do Partido Democrata. Isso seria inconcebível antes, não fosse a histórica luta dos negros por seus direitos civis - os mesmos que, nos séculos passados, foram açoitados, sodomizados, jogados ao mar, mortos de fome. E também pela luta das mulheres, que só tinham a possibilidade de ser donas de casa e conquistaram seus direitos pouco a pouco, não de maneira radical. Creio que a atual situação americana é bem ilustrativa. Trata-se de um país cuja independência veio com uma revolução colonial, que não equilibrou os direitos entre homens e mulheres. Houve uma guerra civil para emancipar os negros, seguido da luta pacífica de Martin Luther King. Processos pelos quais se acumulam direitos - às vezes com violência, outros politicamente, mas em luta constante para, ao menos, garantir a manutenção desses direitos acumulados. Ou seja, embora os ideais mais utópicos tenham sido derrotados, o que se conseguiu foi uma sociedade mais democrática?Com certeza. Temos vitórias parciais que são mais importantes que derrotas. O direito da mulher, a emancipação do negro, a defesa do meio ambiente, a defesa pela alimentação são alguns trunfos. Não viveremos sem problemas, é certo, portanto, temos de nos socorrer nas soluções do passado para imaginar como resolver.Ainda é possível dizer que vivemos sob os ares de 1968?Não, de forma nenhuma. Como disse antes, a história não se repete. O correto é analisar esse fato passado para descobrir o que não conseguimos conquistar naquele momento. Para isso serve a comemoração destes 40 anos - e não a celebração de vitórias particulares.




E o que dizer hoje da frase de Milan Kundera, uma visão bem pessoal do mundo, segundo a qual ''o totalitarismo é um idílio''?




É verdade, porque o idílio vive pouco. O próprio Kundera foi membro do partido comunista checo e viveu os momento que descreve em seus romances. Para o jovem saído da 2ª Guerra Mundial, a liberdade era conquistada via comunismo. Mas logo se percebeu que isso duraria pouco. A lição que fica é a seguinte: não podemos confiar em idílios.






Dez Dias Na Paris DE Maio De 1968:



10 Paris amanhece com o grafite "É proibido proibir - Lei de 10/5/1968", em resposta à inscrição "É proibido colar cartazes - Lei de 29/07/1881", afixada nos muros da cidade. À noite, 20 mil estudantes enfrentam a polícia, episódio que ficou conhecido como "Noite das Barricadas".



13 Estudantes e trabalhadores franceses decretam greve geral de 24 horas em Paris, protestando contra políticas trabalhistas e estudantis do governo.



14 A Sorbonne, que havia sido reaberta pelo presidente Charles De Gaulle no dia 11, é ocupada por estudantes.



17 Cerca de 100 mil grevistas ocupam fábricas francesas; aeroportos e a Rádio e Televisão da França são afetadas. 60 mil policiais vigiam as ruas de Paris.18 Em apoio aos estudantes, Louis Malle, François Truffaut, Roman Polanski, Alan Resnais e Milos Forman retiram seus filmes do Festival de Cannes, que acabam sendo cancelado.



20 Seis milhões de grevistas ocupam 300 fábricas na França; Paris amanhece sem metrô, ônibus, telefones e outros serviços.



21 Trabalhadores ocupam centrais de energia elétrica e luz em Paris.25 George Pompidou, primeiro-ministro francês, inicia negociações com centrais sindicais que já contabilizam 10 milhões de grevistas por todo país.



29 Cerca de 200 mil pessoas fazem passeata por Paris; confronto entre estudantes e policiais é filmado por Jean-Luc Godard.30 Charles De Gaulle, presidente da França, dissolve a Assembléia Nacional e convoca eleições gerais, com o apoio das Forças Armadas.
EM 68
'Em 68' é um livro em que Fuentes compila três textos seus sobre a época, escritos no calor dos acontecimentos ou pouco depois. O autor joga luz sobre seus testemunhos do Maio de 68 parisiense, da Primavera de Praga e do massacre da Plaza de las Tres Culturas, no México. O autor foi testemunha ocular dos conflitos que tomaram Paris em maio daquele ano. Fuentes também presenciou discursos informais de Jean Paul Sartre, sobre como a Europa havia esquecido a promessa humanista de luta contra o fascismo. E participou dos debates que dominavam os cafés parisienses, com dezenas de jovens a insuflar a revolução.

sábado, 29 de março de 2008

Prólogo a La Decadencia de Occidente




Bosquejo de una morfología de la historia de la Historia Universal de Oswald Spengler de José Ortega y Gasset.


En los últimos años se oye por dondequiera un monótono treno sobre la cultura fracasada y concluida. Filisteos de todas las lenguas y todas las observancias se inclinan ficticiamente compungidos sobre el cadáver de esa cultura, que ellos no han engendrado ni nutrido. La guerra mundial, que no ha sido tan mundial como se dice, parece ser el síntoma y, al par, la causa de la defunción.
La verdad es que no se comprende cómo una guerra puede destruir la cultura. Lo mas a que puede aspirar el bélico suceso es a suprimir las personas que la crean o transmiten. Pero la cultura misma queda siempre intacta de la espada y el plomo. Ni se sospecha de qué otro modo pueda sucumbir una cultura que no sea por propia detención, dejando de producir nuevos pensamientos y nuevas normas. Mientras la idea de ayer sea corregida por la idea de hoy, no podrá hablarse de fracaso cultural.
Y, en efecto, lejos de existir éste, acontece que, al menos la ciencia, experimenta en nuestros días un incomparable crecimiento de vitalidad. Desde 1900, coincidiendo peregrinamente con la fecha inicial del nuevo siglo, comienzan a elevarse sobre el horizonte intelectual pensamientos de nueva trayectoria. Esporádicamente, sin percibir su radical parentesco, aparecen en unas y otras ciencias teorías que se caracterizan por disentir de las dominantes en el siglo XIX y lograr su superación. Nadie hasta ahora se había fijado en que todas esas ideas que se hallan en su hora de oriente, a pesar de referirse a los asuntos mas disparejos, poseen una fisonomía común, una rara y sugestiva unidad de estilo.
Desde hace tiempo sostengo en mis escritos que existe ya un organismo de ideas peculiares a este siglo XX que ahora pasa por nosotros. La ideología del siglo XIX, vista desde ese organismo, parece una pobre cosa tosca, maniática, imprecisa, inelegante y sin remedio periclitada.
Esto, que era en mis escritos poco mas que una privada afirmación, podrá recibir ahora una prueba brillante con la Biblioteca de Ideas del siglo XX.
En ella reúno las obras más características del tiempo nuevo, donde principian su vida pensamientos antes no pensados. Desde la matemática a la estética y la historia, procurará esta colección mostrar el nuevo espíritu labrando su miel futura sobre toda la flora intelectual. Claro es que tratándose de una ideología en plena mocedad no podrá pedirse que existan ya tratados clásicos donde aparezca con una perfección sistemática. Es más, algunos de estos libros contienen, junto a las ideas de nuevo perfil, residuos de la antigua manera, y como las naves al ganar la ribera, mientras hincan ya la proa en la arena aun se hunde su timón en la marina.

* * *

El libro de Oswald Spengler, la Decadencia de Occidente, es, sin disputa, la peripecia intelectual más estruendosa de los últimos años. El primer tomo se publicó en julio de 1918: en abril de 1922 se habían vendido en Alemania 53.000 ejemplares, y en la misma fecha se imprimían 50.000 del segundo tomo. No hay duda de que influyeron en tal fortuna la ocasión y el título.
Alemania derrotada sentía una transitoria depresión que el título del libro venía a acariciar, dándole una especie de consagración ideológica.
Sin embargo, conforme el tiempo avanzaba se ha ido viendo que la obra de Spengler no necesitaba apoyarse en la anecdótica coincidencia con un estado fugaz de la opinión pública alemana.
Es un libro que nace de profundas necesidades intelectuales y formula pensamientos que latían en el seno de nuestra época.
Hasta tal punto es asi, que una de las graves faltas del estilo de Spengler es presentar como exclusivas y propias suyas ideas que, con más o menos mesura, habían sido expresadas antes por otros. Puede decirse que casi todos los temas fundamentales de Spengler le son ajenos, si bien es preciso reconocer que ha adquirido sobre ellos el derecho de cuño. Spengler es un poderoso acuñador de ideas, y quienquiera penetre en las tupidas páginas de este libro se sentirá sacudido una y otra vez por el eléctrico dramatismo de que las ideas se cargan cuando son fuertemente pensadas.
¿Qué es la obra de Spengler? Ante todo una filosofía de la historia. Los que siguen la publicación de esta biblioteca habrán podido advertir que la física de Einstein y la biología de Uxküll coinciden, por lo pronto, en un rasgo que ahora reaparece en Spengler y más tarde veremos en la nueva estética, en la ética, en la pura matemática. Este rasgo, común a todas las reorganizaciones científicas del siglo XX, consiste en la autonomía de cada disciplina. Einstein quiere hacer una física que no sea matemática abstracta, sino propia y puramente física. Uxküll y Driesch bogan hacia una biología que sea sólo biología y no física aplicada a los organismos. Pues bien; desde hace tiempo se aspira a una interpretación histórica de la historia. Durante el siglo XIX se seguía una propensión inversa: parecía obligatorio deducir lo histórico de lo que no es histórico. Así, Hegel describe el desarrollo de los sucesos humanos como resultado automático de la dialéctica abstracta de los conceptos; Buckle, Taine, Ratzel, derivan la historia de la geografía; Chamberlain, de la antropología; Marx, de la economía. Todos estos ensayos suponen que no hay una realidad última y propiamente histórica.
Por otra parte, los historiadores de profesión, desentendiéndose de aquellas teorías, se limitan a coleccionar los «hechos» históricos. Nos refieren, por ejemplo, el asesinato de César. Pero ¿«hechos» como éste son la realidad histórica? La narración de ese asesinato no nos descubre una realidad, sino, por el contrario, presenta un problema a nuestra comprensión. ¿Qué significa la muerte de César? Apenas nos hacemos esta pregunta caemos en la cuenta de que su muerte es sólo un punto vivo dentro de un enorme volumen de realidad histórica: la vida de Roma. A la punta del puñal de Bruto sigue su mano, y a la mano el brazo movido por centros nerviosos donde actúan las ideas de un romano del siglo I a. de J. Pero el siglo I no es comprensible sin el siglo II, sin toda la existencia romana desde los tiempos primeros. De este modo se advierte que el «hecho» de la muerte de César sólo es históricamente real, es decir, sólo es lo que en verdad es, sólo esta completo cuando aparece como manifestación momentánea de un vasto proceso vital, de un fondo orgánico amplísimo que es la vida toda del pueblo romano. Los «hechos» son sólo datos, indicios, síntomas en que aparece la realidad histórica. Esta no es ninguno de ellos, por lo mismo que es fuente de todos. Más aún: qué «hechos» acontezcan depende, en parte, del azar. Las heridas de César pudieron no ser mortales. Sin embargo, la significación histórica del atentado hubiera sido la misma.
Quiero decir que la realidad histórica latente de que el acto de Bruto surgió, como la fruta en el árbol, permanece idéntica más allá de la zona de los «hechos»—piel de la historia—en que la casualidad interviene. En este sentido es preciso decir que la realidad histórica no sólo es fuente de los «hechos» que efectivamente han acontecido, sino también de otros muchos que con otro coeficiente de azar fueron posibles. ¡De tal modo rebosa la realidad histórica el área superficial de los «hechos»!
No basta, pues, con la historia de los historiadores. Spengler cree descubrir la verdadera substancia, el verdadero «objeto» Histórico en la «cultura». La«cultura», esto es, un cierto modo orgánico de pensar y sentir, sería, según él el sujeto, el protagonista de todo proceso histórico. Hasta ahora han aparecido sobre la tierra varios de estos seres propiamente históricos. Spengler enumera hasta nueve culturas, cuya existencia ha ido sucesivamente llenando el tiempo histórico. Las «culturas» tienen una vida independiente de las razas que las llevan en si. Son individuos biológicos aparte. Las culturas son plantas—dice—. Y, como éstas, tienen su carrera vital predeterminada. Atraviesan la juventud y la madurez para caer inexorablemente en decrepitud.
Estamos hoy alojados en el ultimo estadio—en la vejez, consunción o «decadencia»— Untergang— de una de estas culturas: la occidental. De aquí el titulo del libro.
La riqueza y problematismo de las ideas spenglerianas impide que yo ahora intente ni un resumen ni una crítica. En otro lugar espero ocuparme largamente de esta obra, ya que su presente versión me permitirá darla por conocida de los lectores hispanoamericanos.
Sólo añadiré dos palabras sobre esta traducción: El señor García Morente ha hecho un enorme y cuidadoso esfuerzo para conseguir transvasar al odre castellano la prosa de Spengler. El estilo del autor, su terminología son tan bravamente tudescos, que no era empresa dulce hallar sus equivalencias españolas. Yo mismo he colaborado un poco en la dura faena de esta versión.
Hoy, al ofrecerla al público, me complace, sin embargo, pensar que sin hallarse exenta de defectos, esta adaptación del libro alemán conserva fielmente el sentido y aun el gesto literario del original sin perder nada de su claridad. Cuando ésta falta puede el lector estar seguro de que no sobra en el texto alemán, y si alguna frase es equívoca en español, lo es también, y con idéntica ambigüedad, en tudesco.
La edición Alemana forma dos tomos tan gruesos y compactos que ha parecido mejor repartir cada uno de ellos en dos volúmenes. El presente corresponde, pues, a la primera parte del primer tomo. La obra íntegra contará cuatro volúmenes en esta edición castellana.


José Ortega y Gasset.



La Decadencia de Occidente

Oswald Spengler:

"Refiro-me à possibilidade de avançar além do presente, além dos limites da investigação e predizer a forma, a duração, o ritmo, o sentido do resultado das fases históricas que ainda não transcorreram."

"Cada cultura possui suas possibilidades de expressão, que germinam, amadurecem e morrem. Há muitas artes plásticas, muitas pinturas, físicas, matemáticas. Cada qual é, em sua profunda essência, totalmente distinta das demais; cada qual possui uma duração limitada; cada qual vive fechada em si mesma, como cada espécie vegetal possui suas flores próprias e frutos, tipo de crescimento e decadência. Vejo na História Universal a imagem de uma eterna formação e deformação, de um maravilhoso advento e perecimento de formas orgânicas. O historiador de ofício, em troca, concebe a história como se fora uma tênia, que, incansavelmente, cresce época após época."




"Será progreso cuanto favorezca un modelo de organización social en el que mayor número de personas alcancen más efectivas cuotas de liberdad : es decir, son progresistas quienes combaten los mecanismos esclavizadores de la miseria, la ignorancia y la supresión autoritaria de procedimientos democráticos. Hablando el lenguaje que hoy resulta más próximo e inteligible, la sociedad progresa cuando amplía y consolida las capacidades de la ciudadanía. Ser progresista es no resignarse ni conformarse con las desigualdades de libertad que hoy existen, sino tratar de superarlas y abolirlas. Y es reaccionario cuanto perpetua o reinventa privilegios sociales, descarta los procedimientos democráticos en nombre de mayor justicia o mayor libertad de comercio, propala mitologías colectivas como si fuesen verdades científicas, etcétera..."
Artículo Regreso al Progreso, publicado en el diario El País el 4 de agosto de 2007


Fernando Savater

Filósofo español, que destaca en el campo del ensayo y el artículo periodístico. Autor de Ética para Amador, Política para Amador, Las preguntas de la vida, entre otras obras.



"Deveríamos ser capazes de recusar-nos a viver se o preço da vida é a tortura de seres sensíveis."

"A não-violência é a qualidade mais fina da alma, mas ela se desenvolve por meio da prática."

"A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar."

"Sempre houve o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; nunca haverá o suficiente para a cobiça humana."

"A força não provém da capacidade física, mas da vontade férrea."

"Não acredito que um indivíduo possa progredir espiritualmente, enquanto aqueles que o cercam estão sofrendo."

"O amor e a verdade estão tão unidos entre si que é praticamente impossível separá-los. São como duas faces da mesma medalha."

"A única maneira de castigar quem se ama é sofrer em seu lugar."

"A minha fé mais profunda é que podemos mudar o mundo pela verdade e pelo amor."

"Três quartos das misérias e mal-entendidos do mundo desaparecerão se nos colocarmos no lugar de nossos adversários e entendermos o ponto de vista deles."

"O capital em si não é mau, mas o mau uso dele transforma-o num mal."

"Se o sangue for derramado, deixe que seja nosso sangue. Cultive a coragem silenciosa de morrer sem matar. Um homem vive livremente apenas quando está pronto para morrer, se necessário for, nas mãos de seu irmão, nunca matando-o."

"Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida."

"Você deve ser a própria mudança que deseja ver no mundo."

"Os únicos demônios neste mundo são os que perambulam em nossos corações, e é aí que as nossas batalhas devem ser travadas."

"O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente."

"Se um único homem chega à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões."

"Devemos expandir o círculo do nosso amor até que ele englobe todo o nosso bairro; do bairro, por sua vez, deve desdobrar-se para toda a cidade; da cidade para o estado, e assim sucessivamente até o objeto do nosso amor incluir todo o universo."

"A não-violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não-violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível."

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente, que há no mundo."
"Só podemos vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio."
"A natureza é inexorável, e vingar-se-á completamente de uma tal violação de suas leis."

"Quem venceu o medo da morte venceu todos os outros medos."

« En appliquant le Satyagraha, j'ai découvert, dans les dernières manifestations, que la poursuite de la vérité n'admettait pas que la violence soit imposée à son opposant, mais qu'il doit être sevré de l'erreur par la patience et la sympathie. Pour ce faire, ce qui apparait comme vrai pour un doit apparaitre faux pour l'autre. Et la patience signifie souffrance personnelle. En bref, la doctrine signifie la revendication de la vérité, pas par infliction de la souffrance sur l'adversaire mais sur soi. »


« Si, en définitive, le seul changement attendu ne touche qu'à la couleur de l'uniforme militaire, nous n'avons vraiment pas besoin de faire toutes ces histoires. De toutes façons, dans ce cas-là, on ne tient pas compte du peuple. On l'exploitera tout autant, sinon plus, qu'en l'état actuel des choses. »


« L'État représente la violence sous une forme intensifiée et organisée. L'individu a une âme, mais l'État qui est une machine sans âme ne peut être soustrait à la violence puisque c'est à elle qu'il doit son existence. »


« La véritable indépendance ne viendra pas de la prise du pouvoir par quelques-uns, mais du pouvoir que tous auront de s'opposer aux abus de l'autorité. En d'autres termes, on devra arriver à l'indépendance en inculquant aux masses la conviction qu'elles ont la possibilité de contrôler l'exercice de l'autorité et de la tenir en respect. »

« Ce serait un état d'anarchie éclairée. Dans un tel pays, chacun serait son propre maître. Il se dirigerait lui-même de façon à ne jamais gêner son voisin. Par conséquent, l'État idéal est celui où il n'y a aucun pouvoir politique en raison même de la disparition de l'État. »


« C'est une erreur de croire qu'il n'y ait pas de rapport entre la fin et les moyens, et cette erreur a entraîné des hommes considérés comme croyants à commettre de terribles crimes. C'est comme si vous disiez qu'en plantant des mauvaises herbes on peut récolter des roses[67]. »


« Quand je désespère, je me souviens qu'à travers toute l'histoire, les chemins de la vérité et de l'amour ont toujours triomphé. Il y a eu des tyrans et des meurtriers, et parfois ils ont semblé invincibles, mais à la fin, ils sont toujours tombés. Pensez toujours à cela[68]. »

Mohandas Karamchand Gandhi (Devanagari मोहनदास करमचन्‍द गान्‍धी), mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi (Mahatma, do sânscrito "grande alma") (Nova Dehli, 2 de outubro de 1869 - 30 de janeiro de 1948) foi um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e um influente defensor do Satyagraha (princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto) como um meio de revolução.


SENTIMENTO DO MUNDO

(Sofia)

Tenho apenas duas mãos


e o sentimento do mundo,


mas estou cheio de escravos,


minhas lembranças escorreme


o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar,


o céu estará morto e saqueado,


eu mesmo estarei morto,


morto meu desejo,


morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram


que havia uma guerrae


era necessário trazer fogo e alimento.


Sinto-me disperso,


anterior a fronteiras,


humildemente vos peçoque me perdoeis.

Quando os corpos passarem,


eu ficarei sozinho


desfiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopistaque


habitavam a barraca

e não foram encontrados


ao amanhecer

esse amanhecer

mais noite que a noite.




CarLos Drumond de Andrade

sexta-feira, 28 de março de 2008

Se tudo existe é porque sou


Clarice Lispector



Se tudo existe é porque sou. Mas por que esse mal estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é. Desconfortável. Não me sinto bem. Não sei o que é que há. Mas alguma coisa está errada e dá mal estar. No entanto estou sendo franca e meu jogo é limpo. Abro o jogo. Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza. O que há então? Só sei que não quero a impostura. Recuso-me. Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.

Giambattista Vico



Giovanni Battista Vico (23 juin 1668 – 23 janvier 1744) est un philosophe italien, précurseur de la philosophie de l'histoire.


Biographie
Né à Naples, fils d’un modeste libraire, il fait, selon ses dires (Vie de Giambattista Vico écrite par lui-même, 1728), des études assez décousues et se plaît à se définir comme un autodidacte. D'abord précepteur, puis professeur de rhétorique à l'université de Naples de 1699 à 1741, il est, de 1735 à sa mort, historiographe auprès de Charles III, roi de Naples.

L’ouvrage majeur de Vico est Principi di scienza nuova d’intorno alla comune natura delle nazioni (« La Science nouvelle », 1725).

Vico y expose une théorie cyclique (« corsi et ricorsi ») de l’histoire selon laquelle les sociétés humaines progressent à travers une série de phases allant de la barbarie à la civilisation pour retourner à la barbarie.

La première phase, l’« âge des dieux » est celle de l’émergence de la religion, de la famille et d’autres institutions de base ;

la deuxième phase, l’« âge des héros » : le peuple est maintenu sous le joug d’une classe dominante de nobles ;

la troisième phase, l’« âge des hommes » : le peuple s’insurge et conquiert l’égalité, processus qui marque cependant le début de la désintégration de la société.

L’influence de Vico, reconnu de son vivant plutôt comme philologue que pour son système philosophique, se mesure surtout au début du XIXe siècle, lorsque Jules Michelet publie ses Principes de la philosophie de l’histoire (1835), et qu'il traduit et présente Vico comme un philosophe de l’histoire. Il en donne une lecture romantique, qui inspirera à la fois Hegel et Karl Marx. Son influence sera aussi majeure sur les idéalistes italiens Benedetto Croce et Giovanni Gentile, mais également sur le marxiste Georges Sorel. Il est en outre considéré comme une référence pour l'épistémologie constructiviste, Ernst von Glasersfeld le qualifiant de premier vrai constructiviste (dans An Introduction to Radical Constructivism).


Citations:
Verum ipsum factum ("Le vrai est le faire même")
Verum et factum convertuntur ("Le vrai et le fait sont convertibles")

Œuvres:

L'antique sagesse de l'Italie, 1710, GF, ISBN 2080707426
La science nouvelle, 1725, Gallimard, ISBN 2070731340
Vie de Giambattista Vico écrite par lui-même, Allia, ISBN 2844851118

Bibliographie :
Paolo Cristofolini, Vico et l'histoire, PUF 1995, ISBN 2130468802
« Scienza nuova » de Giambattista Vico, Noesis n°8, 2006
"La science nouvelle", édition Nagel 1953, traduction Fausto Nicolini. texte intégral avec présentation de Alain Pons, sur le site de MCXAPC
Michel Paoli, Les Principes de la Philosophie de Giambattista Vico exposés more geometrico, « Chroniques italiennes », XXVII (1991), pp. 43-52.


Como se chama


Clarice Lispector

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente - como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota - como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.


in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992

Dialética do Esclarecimento e Nietzsche





Augusto Patrini Menna Barreto Gomes




Ao lembrar que por pretenderem comunicar algo, qualquer tipo de obra tem compromisso com as sensibilidades de sua época, sua linguagem e, os temas são compreendidos por seus interlocutores de época de forma diferente daqueles da posteridade. Seus temas e seu vocabulário estão inscritos em um tempo, e um espaço. Seu uso, porém, no futuro é de infinitas utilizações – e até abusos, mesmo a contragosto de seu realizador.
Assim considerando que o artista, ou o filósofo, o intelectual em geral, são portadores de um gêni-eu (mesmo que cindido ou multifacetado), de sensibilidades especiais, que dão valor e singularidade aos seus olhares. Eles podem perceber questões que passam despercebidas para seus contemporâneos – e assim, muitos deles, como Nietzsche, por exemplo, nascem já póstumos. Por exemplo, escritores como Albert Camus e Louis-Ferdinad Céline
[1], quiçá estivessem, em termos políticos, em campos opostos, captaram ambos em um “entre-tempo” singular de forma excêntrica e aguda sua época – tiveram a capacidade de ver além do que o rebanho e os jornais-rebanho viam. Por isso foram muitas vezes condenados.
Detectaram como Nietzsche, Adorno e Horkeheimer como a ciência e a técnica tornar-se-ia um mito, ou mistificação para a sociedade moderna.
Marcuse foi mais longe ainda em seu Homem Unidimencional
[2] afirmando que a re-produtividade técnica tornou-se-ia a Arte da destruição, e uma forma de esmagar as potencialidades e singularidades do ser humano. Em seu Eros e a Civilização[3], ao contrário de Freud em seu Mal Estar na Civilização[4] – que indicava como a sublimação do Eros é o elemento necessário para o estabelecimento da civilização – Marcuse[5] acusa este mesmo Eros de ser a força potencial necessária a civilização, e conseguintemente responsável pela limitação das potencialidades humanas. Desejo tornar-se-ia então, contraditoriamente, fonte de destruição e civilização. Sobre Isso Nietzsche indica magistralmente como a moral do fraco, a moral burguesa, tornou-se uma necessidade para a civilização:

O homem, o animal mais corajoso e mais habituado ao o sofrimento, não nega o sofrer em si, ele o deseja, procura-o até, sob a condição de que lhe seja mostrado um sentido, um para quê no sofrimento. A falta de sentido do sofrer, não o sofrer era a maldição que até então se estendia sobre a humanidade – e o ideal ascético lhe ofereceu sentido! Foi até agora o único sentido; qualquer sentido é melhor nenhum... – o homem estava salvo, ele possuía um sentido, a partir de então não ser mais uma folha ao vento... ele agora podia querer algo – não importando no momento para que direção, com que fim, com que meio ele queria: a vontade mesma estava salva. Não se pode absolutamente esconder o que realmente expressa todo esse querer que o ideal acético recebeu sua orientação: esse ódio ao que é humano, mais ainda ao que é animal, mais ainda ao que é matéria, esse horror aos sentidos, à razão mesma, o medo da felicidade e da beleza, o anseio de afastar-se do que seja aparência, mudança, morte, devir, desejo, anseio - tudo isso significa, ousamos compreendê-lo, uma vontade de nada, uma aversão à vida, uma revolta contra os fundamentos pressupostos da vida, mas é e continua sendo uma vontade!... E, para repetir em conclusão o afirmei no início: o homem preferira ainda nada, a não querer ...
[6]


Podem-se fazer várias interpretações do trecho citado. Uma delas, é que o ideal acético, e de sofrimento é necessário a psicologia do burguês ou ainda para entrar na terminologia dos frankcfurtianos necessário ao sistema capitalista burguês.
Já Nietzsche pensa que a arte é um das expressões humanas que nos possibilita dar uma explicação, mesmo que parcial, à condição humana, e permitir ao ser humano dar algum mínimo razão ao absurdo e terror da experiência humana
[7]. Nietzsche[8] martelou filosoficamente de forma incrível conceitos “pre-aceitos” como moral, utilidade, cristianismo etc, ajudando a completar, talvez o desencantamento do mundo[9]. Quando isso diz respeito ao esclarecimento isso é evidente, em particular, na sessão IV de Crepúsculo dos Ídolos: Como o “mundo verdadeiro” se tornou finalmente Fábula (História de um erro), além de “Os Melhoradores da Humanidade”[10]. Na verdade não se pode acusser Nietzsche de irracionalista, o que ele quer chamar a atenção é que a razão ao sobrepujar todas as outras tendências humanas torna-se mito e desrazão. Ele não é, como muitos o acusaram um apologeta da paixão, sua crítica à moral, necessária ao status quo, é uma crítica a um tipo de moral, em especial a judaico-cristã.
Ele, em sua crítica devastadora ao conceito de moral e de ciência identificou bem como a ciência, e a razão tornaram-se, eu arrisco hibridamente, com a modernidade, uma mitologia. Seus escritos “iluminaram” Adorno e Horkeheimer a pensarem a cultura e seu tempo. Porém, estes autores não podiam abandonar conceitos, pré-supostos tacitamente aceitos para ler Nietzsche: é por isso que vemos em seus escritos adjetivos e conceitos que lhes pareciam inevitáveis: “burguês”, “dialética”, “progresso”, “ideologia” etc. Sua perspectiva, seu lugar social e temporal obrigava-os a isso. Parece-me, que estes autores, mesmo com sua aguda e fina crítica, por sua história e origem ao buscarem uma emancipação humana, acabam por recair no que a maioria dos socialistas fez e ainda o faz; a desesperada busca pela redenção e pelo paraíso perdido, intimamente ligada a cosmogonia judaico-cristã. A história apontaria assim para um fim, de forma escatológica, o fim das classes, ou o fim dos tempos, onde todos os homens serão julgados. Para os melhoradores de homens desse tipo Nietzsche diria: niilistas.
Cito: “Assim ele [Nietsche] enxergava no esclarecimento tanto um movimento universal do espírito soberano, do qual se sentia o realizador último, quanto a potência hostil à vida, “Nihilista.”. E, seus seguidos pré-fascistas
[11], porém, apenas o segundo aspecto se conservou e se perverteu em ideologia. Esta ideologia torna-se a cega exaltação da vida cega, à qual se entrega a mesma prática pela qual tudo o que é vivo é oprimido. Isto está claramente expresso na posição dos intelectuais fascistas em fase de Homero.”[12] Este trecho, parece-me uma instrumentalização do pensamento de Nietzsche, que encontra-se deslocado de seu contexto, de seu tempo, e convertido à fórceps à uma espécie de dialética.
Mas Nietsche foi capaz de perceber que o real pode tornar-se ficção. As instituições modernas se dissolvem em novos mitos, não aquele do Entzauberung de Weber, mas novos mitos, aqueles hoje apontados por filósofos como Alan Badiou e Giorgio Agamben. Os mitos da hiper-modernidade são aqueles atacados por Nietzsche – e também por Adorno e Horkheimer, a democracia, o utilitarismo, o estado de direito, o direito internacional, a fluidez do capital. A liberdade humana realiza-se apenas como capital útil e quantificavel. Novos mitos são levantados – o fluxo dos capitais, a falsa liberdade de ir e vir. Não obstante um certo desencantamento das coisas e do mundo e a morte de Deus no mundo ocidental – na periferia e no mundo ocidentalizado (ex: Brasil) enrijem-se novos fundamentalismos. O mundo islâmico é sacudido por uma mitologização híbrida que mescla técnica de guerra, exceção, e uma mistura de política e religião. Percebe-se assim que de alguma maneira mais sinistra e perversa o desencantamento é apenas parcial no mundo periférico, o mito absorveu de maneira esquizofrênica o mito da razão instrumental, o utilitarismo selvagem, mas não abandonou velhos postulados morais dos cristãos. O Homem em si torna-se, no centro e na periferia do mundo, aboleto e o estado de exceção toma aos poucos o sistema internacional e o Direito Internacional – tornando-se regra ficcionalmente aceitos.
Agora, que os escritos de intelectuais sejam instrumentalizados não há nenhuma novidade nisso; são vários os exemplos na história, Marx e Nietzsche são apenas dois deles. Por vezes, são seus próprios pares os instrumentalizadores, por vezes integrantes de campos de força opostos
[13]. È interessante observar a divisão que faz Hermínio Martins, em Hegel, Texas e outros Ensaios de Teoria Social[14], quanto a perspectiva dos intelectuais perante a técnica: Fausticos e Prometeícos. Não é necessário explicar que os prometeicos seriam aqueles que viam necessariamente na técnica a fonte de uma libertação humana, já os fausticos seriam aqueles que considerariam a tecnologia totalmente desprovida de fins bons ou maus. No final deste ensaio o autor lembra-se da Dialética do Iluminismo como que uma mistura das duas vertentes, já que seus autores vislumbraram a capacidade destruidora da razão e da técnica, sem no entanto abandonar o postulado de progresso próprio do iluminismo, e do qual o marxismo nunca pode se livrar.
Assim lembra-nos Artur Herman como Niezsche foi lido, interpretado ou até abusado desde sua demência: “Após 1900 os escritos de Nietzsche se transformaram em instrumentos de trabalho disponíveis a toda gama de facções ideológicas da Alemanha. Socialistas aproveitaram seus ataques à burguesia e ao cristianismo organizado. Pangermanistas puderam explorar seus ataques ao judaísmo; sendo Elisabeth Foster-Nietzsche profundamente anti-semita. Nietzsche se transformou (sem o conhecimento dele) em um porta voz do arianismo anti-semita
[15]. Da mesma forma, uma gravura de Nietzsche convalescente, com seu vasto bigode e olhar intenso (que disfarçava a vacuidade total da mente), tornou-se o pôster favorito entre os escritores alemães, vanguardistas e não-políticos Hermann Hesse e Stefan George. Sua influência não ficou restrita à Alemanha. George Bernard Shaw presenteou o público de teatro de Londres com a peça Homem e super –homem, mas tarde elogiada por Oswald Spengler como uma exposição magistral e divertida das doutrinas de Nietzsche. Na América do Norte, Nietzsche exerceu forte influência sobre H. L. Mencken, que escreveu um livro explicando sua filosofia. Na França inspirou o anarquista Georges Sorel, que transmitiu a marxistas e a fascistas revolucionários como Benito Mussolini, enquanto na Espanha suas obras incitaram um importante motim filosófico através dos escritos de Miguel de Unamuno e José Ortega Y Gasset, autor de A Rebelião das Massas. Nietzsche de uma hora para outra se tornou o filósofo antiliberal do século XX. Ele provou ser mais importante neste aspecto do que Karl Marx, pois, enquanto as teorias de Marx se tornaram reféns do partido comunista depois de 1917, Nietzsche permaneceu um ícone cultural compartilhado pela esquerda e pela direita[16]. Isso foi verdade sobretudo entre partidários do emergente estilo modernista e do expressionismo, como os poetas Stefan George e Gottfried Benn que acreditaram que uma elite artístico-espiritual guiaria uma futura revolução da ordem burguesa hipócrita. Conforme declarou um deles ‘Nietzsche não foi um profeta do Volk (povo), mas o profeta dos profetas.’”[17]
Ou seja, muitas leituras de Nietzsche são possíveis. Infelizmente, geralmente, quando se vulgariza um pensamento tão complexo comete-se com freqüência grandes equívocos.


II.

A leitura feita por Adorno e Horkeheimer apesar de fina e brilhante em alguns aspectos – utiliza-se de Nietzsche, ao meu ver de maneira bastante utilitária. No trecho “Ao erigir o culto da força em doutrinas historico-universais, o fascismo alemão reduziu-o ao mesmo tempo o absurdo que o caracteriza. Enquanto protesto contra a civilização, a moral dos senhores defendeu indiretamente os oprimidos o ódio pelos instintos atrofiados denuncia objetivamente a verdadeira natureza do mestre disciplinador, que só se manifesta em suas vitimas. Mas enquanto grande potência e religião do Estado, a moral dos senhores entrega-se definitivamente aos civilizatórios power that be, à maioria compacta, ao ressentimento e a tudo aquilo a que antes se opunha. É a realização das próprias idéias que refuta Nietsche e ao mesmo tempo libera nele a verdade que, apesar de toda afirmação da vida, era hostil ao espírito da realidade.” Ora, na relação fascista, me parece a leitura feita pelos autores um tanto invertida já que a vontade de demonstrar poder do comando fascista é justamente aquela do fraco reativo, que necessita exercer poder sobre o mais fraco, com uma vontade de poder mais fraca. Assim, o fascista, é para Nietzsche, um fraco ressentido, já que o fanatismo é à vontade dos fracos. Não é a toa que os falangistas espanhóis gritavam “Viva la Muerte!” (niilismo), esta vontade de nada é à vontade do fraco que ainda detêm em si alguma vontade de potência. Além disso se analisarmos toda elogio nazismo ao cientificismo eugenista e a estética clássica, percebe-se a contradição ao o elogio que Nietsche faz do equilíbrio entre Apolo e Dionísio. Para ele, justamente um dos problemas da ciência moderna era sua concepção e fundamentos exclusivamente apolíneos.
A crítica dos Autores da “Dialética do esclarecimento”, parecem desconhecer, ou propositalmente ignorar, o potencial emancipador contido na filosofia de Nietzsche: eles reconhecem seu lado crítico, mas ignoram, seu lado legislador. Aquela parte de sua filosofia que pode libertar o homem da moral de escravo, da hipocrisia cristã e que faz aceitar o amor fati: "Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo". ... "Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.” (GM). Isso faz com que o homem torne-se forte, no sentido não reativo, no sentido que a chamada renaissance nizscheenée française pode bem perceber, como foram as leituras de Deleuze et Guatarri, e hoje o outsider Michel Onfrey
[18] parece compreender: "Amor fati": seja este, doravante, o meu amor" Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim."
Há ainda em Nietzsche um flagrante recusar do Estado, que ainda pode ser bastante relevante, mesmo assim como nos diz Dupuy: “Voilá pourquoi Nietzsche, em dépit de sa haïne de L´État. Certes, Il avait lu Max Stirner, non sans em subir la séduction, notamment par la tentative, menée au non de la liberte de l´esprit, par l áuteur de L´Unique pour exorciser ses fantômes que les hommes entretiennent dans leur ame, qu´il les aient créés eux-même ou qu´ils leur aient été inculqués par les maîtres de ce monde, souvarains ou penseurs dominants. Ce refus de l´idelisme, comme l antiéttatisme, a pu encontrer em lui qulque écho. Mais les conclusions sociales de stirner ne pouvaint être les siennes, non plus que celles des autres membres des diverses sectes anarchistes.” Por que Niezsche não nega a luta, e pensa que ao não negar a luta e a apontar essa moral dos escravos, liberta.
[19]


Bibliografia auxiliar:
MOURA, Carlos A. R. Nietsche: civilização e Cultura. SP: Martins Fontes, 2005.
Politique de Nietzsche, Presenté e org. René-Jean Dupuy. Paris: LibrarieArmand Colin, 1969.
ANSELL-PEARSON, Keith. Nietzsche como pensador Político. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 2007.




[1] O primeiro, durante a segunda Guerra Mundial engajou-se na resistência francesa ao ocupante nazista, o segundo publicou panfletos anti-semitas, foi considerado colaborador e condenado a morte pela resistência. Com a invasão americana, teve que se refugiar na Dinamarca, onde com o fim da guerra cumpriu pena.
[2] MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar Editores: 1978.
[3] MARCUSE, Herbert. Eros e a Civilização. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor: 2007.
[4] FREUD, Sigmund. Mal Estar na Civilização. Rido de Janeiro: Imago, 1997.
[5] Marcuse (1967) afirmou em A Ideologia da Sociedade Industrial que o estabelecimento da modernidade foi fruto da maquinização (tecnização), do nascimento das grandes cidades industriais e de todos as dificuldades ligados à relação do indivíduo com a sociedade de massa. O indivíduo passou a ser mantido por meio da labuta em uma condição letárgica que o empobreceu culturalmente e fisicamente.
[6] NIETZSCHE. Genealogia da Moral, 3ª Dissertação – O que significam ideais acéticos. SP: Cia das letras, 20006.
[7] ANSELL-PEARSON, Keith. Nietzsche como pensador Político. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 2007
[8] Seria interessantíssimo estudar como o pensamento de Nietzsche foi influenciado por Shopenhauer e a escola do pessimismo alemão, assim como Dostoievski, Leopardi e Paul Bourget – com sua teoria da decadência. Infelizmente me falta tempo, competência e espaço para tal pesquisa.
[9] O termo cunhado por Weber, inicialmente dizia respeito a um certo desencantamento do religioso do mundo, mas amplia-se aos pouco, como nos mostra bem o professor Pierruche ao mundo da ciência: “Se há ampliação de seu ponto de vista quando se passa do desencantamento religioso para o desencantamento cientifico do mundo, os dois usos se mostram ora simultâneos ou intercalados, nunca porém sucessivos no sentido de ir deixando para trás prismas de análise menos gerais.” (p. 218) PIERUCCI, Antônio Flávio. O Desencantamento do Mundo –Todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2003.
[10] Nietzsche, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. Trad. Paulo César de Souza. SP: Cia das Letras, 2006.
[11] Aqui uma das referências parece ser Oswald Spengler, que desenvolveu uma Teoria da História baseando-se nas idéias de Nietzsche, e que foi cortejado pelo nazi-facismo, sem, no entanto nunca aderir a ele. O tema da vida parece ser um tanto atual, já que encontramo-nos em época de aquecimento global e desastre ecológico eminente. SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Ed. Cond. Helmut Werner Trad. Herbert Caro. Brasília: Editora Universidade de Brasília.
[12] ADORNO & HORKHEIMER. Dialética do Esclarecimento, RJ: Jorge Zahar Editor, 1985.
[13] O livro La Raza Cósmica do mexicano José Vasconcelos parece ser um bom exemplo. Foi usado diversas vezes entre os mexicanos tanto pelos campos da direita como da esquerda. VASCONCELOS, José. LaR aza Cósmica. Baltimore: 1997. Particularmente penso que um elogio a mestiçagem é sempre interessante, em um tempo em que cada vez mais muros são levantado entre os homens – o muro México/EUA, as cercas que “protegem” a Europa Unida dos imigrantes africanos no sul da Espanha, os muros israelenses etc. O Brasil poderia, neste contexto internacional dar um bom exemplo “levantando” radicalmente as suas fronteiras e abrindo-se para os povos.
[14] MARTINS, Hermínio. Heguel, Texas e Outros ensaios de Teoria Social. Lisboa: Século XXI, 1996.
[15] Após as manipulações e falsificações de seus textos por sua irmã. Nietzsche criticava a moral judaica e não o povo judeu, que era por ele considerado “forte”.
[16] Aqui acho que Nietzsche pode ser inspirador também para filósofos contemporâneos, situados em campos diferentes, como o são Alains Badiou, com seu livro O Século. Aparecida: Idéias e letras, 2007, e Robert Nozick, com seu livro libertarionista Anarchie, État et Utopie. Paris, PUF: 1998. A “presença” de Nietzsche também pode ser sentida em livros como “Pesadelo Refrigerado”, de Henry Miller, onde há uma crítica mordaz ao utilitarismo e pragmatismo norte-americano.
[17] HERMAN, Arthur. A Idéia de decadência na História Ocidental. RJ: Editora Record, 1999.
[18] ONFRAY, Michel. Politique du Rebelle. Traité de résistence et d´insoumission. Paris: Biblio Essais-Le Livre de Poche-Grasset, 1997. ou Op. Cit. L´Art de Jouir. Paris, Lê Livre de Poche-Grasset, 1997. ou ainda Op. cit. Le Désir d´être um Volcan. Le Livre de Poche, 1998
[19] CORAZZA, Sandra, TADEU, Tomaz e Zordan Paola. Linhas de Escritas. São Paulo: Autêntica, 2004